Escrevo
para agradecer a acolhida tão gentil de todos
vocês. Foram
dias agradáveis em que o cavalheirismo do Claudio,
portando-se como
um autêntico guia, e a simpatia do grupo, deixara,
em mim, marcas
indeléveis.
De tudo o que vi e vivi neste dias, o que mais apreciei
foi o
entusiasmo que palpitava em cada um do grupo criador
do projeto.
Exerceram as suas atividades com amor, parecendo perceber
que
estavam erguendo um monumento, algo perene, que muitos
sonham, mas
que poucos realizam e com tanta garra.
Continuem sonhando! Ao contrário do que dizem
sonhar custa muito
caro. Mas mesmo assim, é necessário
sonhar.
Aprendi com a Gládis a respeitar o sonho dos
jesuítas, que por
minhas crenças, tenho-os com reservas. Depois
de suas informações,
olhei para as ruínas das igrejas e pensei que
os sonhos dos jesuítas
não haviam terminado. Ali estavam a incentivar
que sonhemos alto,
grandiosamente, sem medo de errar, certo de que sem
sonhos não há
vida, porque tudo nasce primeiro em nossos corações.
As flores sonharam com a manhã e, assim mostraram
suas cores, eu as
vi no Caminho, tantas e tão belas, dizendo
sim à vida, como vi
tapetes verdes espalhados nas coxilhas, estendidos
pelas mão dos
homens rurais, nos seus sonhos que ali se materializavam,
e se
repetem a cada ano, independente de fracassos ou sucessos,
nas
colheitas.
Também sonhei, durante o caminho, pois levei
comigo os meus olhos de
artista, para procurar a Beleza. E a Beleza ali estava,
no convívio
com os companheiros, nas brincadeiras, no sorriso
fácil e
despreocupado, de cada um. E até no cansaço
da jornada.
E na minha busca, com olhos de sonho, eu vi o líder
Sepé Tiarajú.
Já no primeiro dia, em que o sol intenso tornava
o verde dos morros
mais verde e o azul do céu quase violeta, ele
me apareceu sobre uma
coxilha, cavalgando um cavalo branco e brandindo sua
lança de cedro
e ferro.
Seus olhos eram azuis, como os da Marta, e seu sorriso
de vencedor,
lembrava-me o da Gládis. Os braços eram
parecidos com os do Claudio
e o peito guerreiro com o de Romaldo.
Então eu soube que ele era um homem reconstruído
pelas lembranças
dos que hoje ainda o cultuam. Cavalgando se aproximou
de mim, e com
seu jeito missioneiro, franco e aberto, disse-me que
nunca deixaria
de cavalgar aquelas coxilhas que tanto amou, pois
sua força,
imbatível e inesquecível, estava no
coração dos que compreenderam
seu gesto de amor à terra, terra que ele dizia
ter dono, e que nos
deixou como herança.
Pedi a ele, como peregrino, antes que desaparecesse,
cavalgando
entre as coxilhas, um conselho. Ele sorriu. Ergueu
a lança e seu
cavalo empinou quando gritou, um grito que se espalhou
pelos morros
e vales azuis: JAHA NONDE!
Então compreendi que era preciso continuar
a busca. Sempre. Avante,
sem esmorecer!
Porque a Beleza estava ali, depois da curva, no próximo
por do Sol,
no mistério renovado da Lua Cheia, no amor
que um povo, um dia,
dedicou à Terra-Sem-Males, que nunca foi, nem
nunca será destruída,
porque era filha dos sonho de muitos, que a amaram,
acima de suas
próprias vidas.
Terra-Sem-Males, que cada peregrino foi buscar e,
se não achou
ainda, quem sabe, como o povo Guarani, sem desistir
nunca,
continuará buscando. Porque o Povo das Missões
provou que ela
existe, que é possível a paz, o convívio
social, o repartir, o
reerguer-se sempre, e, mais do que tudo, Sonhar! Assim
como vocês
sonharam.
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