Relatos Peregrinos

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Sandra Azevedo

14/05/2005 - 15 horas - Chegada em Santiago de Compostela

A emoção se desdobrava em meu coração desde que havia contemplado Compostela no Monte del Gozo. Logo havíamos começado a entrar na cidade com o passo do impaciente, daquele que não termina de ver chegado o momento de contemplar o que tantas vezes havia visto em fotos e agora, ansiava a ver em realidade.


Percorremos as ruas sentindo-nos protagonistas de nossa própria história, vencedoras de nossas provas existenciais e entramos na parte velha de Santiago. Estava ameaçando cair o maior toró.


Seguíamos as flechas amarelas e passamos pela rua chamada Barrio dos Concheiros, Rua de San Pedro até a Puerta del Camino, uma das sete que davam acesso à cidade quando esta era cercada de muralhas. Mais ainda faltava caminhar mais um pouco para chegar à Catedral. De repente chegamos na frente de uma impressionante entrada em forma de arco, uma espécie de portal, que daria acesso à fachada barroca do Obradoiro.


Escutamos suaves melodias de um cântico celestial. Aquilo era mais do que eu poderia esperar, sentia como um sinal de boas-vindas que o céu oferecia para nós. Era um rapaz tocando sua harpa.

Exatamente às 15 horas, estávamos entrando na Plaza del Obradoiro e pudemos deslumbrar a nossa meta alcançada através da estonteante beleza da Magnífica Catedral de Santiago de Compostela.
OLHEM, OLHEM, aí está a Catedral... O tempo todo eu imaginava esta cena: Eu chegando a Santiago e celebrando esta extraordinária e apaixonante peregrinação que acabava de finalizar. Peregrinação na qual cada dia havia sido diferente, dias melhores, dias piores, mas onde cada um aprende a superar-se, a ser melhor, a conhecer as pessoas, a enfrentar os obstáculos, a ultrapassar a dor física causada pelas terríveis "ampollas", aproveitar as oportunidades; APRENDER A VIVER. E viver se aprende vivendo, porque nunca se sabe tudo, todos os dias nos são apresentadas situações diferentes às quais temos que improvisar. A Keka e a Núbia chegaram junto comigo. Não posso definir este forte laço que unia meu coração ao delas. Fomos cúmplices nas nossas alegrias, conversas, cansaço, dores, esforços, determinação, despedidas, bondade, carinho, autenticidade, amor e fé.

Quando nos preparávamos para levantar daí, vem se aproximando um homem todo vestido diferente. Todos tiravam foto com ele. Chamei ele para tirar uma foto conosco. Porém eu estava vestida com a camisa do Brasil e ele começou a gritar e a fazer o maior escândalo, em plena praça, no meio de todas as pessoas que passavam por alí neste momento: "- Não tiro foto com brasileiros, não. Paulo Coelho é um ladrão. Ele não fez o Caminho de Santiago". E apontando para a Catedral continuou: "-Paulo Coelho é um ladrão. Ele ganha dinheiro com o Caminho, mas eu não...". Tentei bater uma foto dele mas tive a impressão de que ele ia querer tomar minha câmera pois ao mesmo tempo que gritava, se escondia para não ser fotografado e não tirava o olho de nós. Mesmo sem ele querer consegui bater uma foto dele. Eis aí...

Agora só queríamos entrar na Catedral. Por não ser o Ano Santo Compostelano a Porta Santa estava fechada e por isso entramos pela impressionante fachada barroca do Obradoiro. Para quem não sabe, toda as vezes que o dia 25 de julho, dia dedicado ao Apóstolo Santiago, cai num domingo, este é considerado um Ano Santo. Como todo peregrino, eu também respeitei os rituais e as tradições, assim que parei em frente ao Pórtico da Glória, obra sublime de mármore e granito narrando cenas do Apocalípse de São João, que acometeu o Maestro Mateo. Apoio a mão na desgastada coluna onde milhares de peregrinos fizeram o mesmo.

Em frente a esta coluna o Mestre Mateo esculpiu sua própria figura. Parei em frente a estátua de pedra do Santo dos Croques e dou os três "croques" - bater com a cabeça - para adquirir sabedoria.

A tradição quer que o peregrino abrace a imagem do Apóstolo que preside a nave central, como um gesto de companheirismo, como uma confiança que Santiago lhe presenteia. Logo subi até onde se encontra o busto de Santiago peregrino, e o abracei por trás debaixo de grande extase. Pedi os três desejos e agradeci. Agradeci a DEUS por tudo. Desci para visitar a tumba onde supostamente se encontram os restos mortais de Santiago.

Como já chegamos à tarde só poderíamos participar no outro dia da solene Missa dos Peregrinos, celebrada diariamente ao meio-dia em ponto. No início da nossa peregrinação, ainda em Roncesvalles, primeira cidade da Espanha após atravessarmos os Pirineus, recebemos a benção que se dá na Colegiata, na Missa dos Peregrinos. O mesmo acontece no final da nossa peregrinação quando o sacerdote ao iniciar a Missa, dá as boas vindas a todos os peregrinos chegados neste dia. Uma vez alimentada a alma, nos dirigimos a oficina do peregrino, um escritório onde são recebidos os peregrinos que chegam a Santiago e onde se recebe a Compostelana, certificado de conclusão do Caminho, conferido pela Igreja Católica, mediante a apresentação da credencial devidamente carimbada que atesta a nossa condição de peregrinos, segundo a Igreja Católica.

15/06/2005
Missa do Peregrino na Catedral de Santiago de Compostela

A Igreja estava lotada, não pude nem me concentrar direito porque não encontrei mais lugar para sentar, e mal podia me movimentar.
A Missa do Peregrino é um acontecimento grandioso, é realizada diariamente ao meio-dia, e é realmente uma cerimônia lindíssima. Em dado momento o Sacerdote celebrante faz menção à nacionalidade dos peregrinos que registraram sua chegada junto à Oficina de Peregrinações: brasileiros entre eles.
Botafumeiro
entre eles.Sinceramente não tenho como descrever este espetáculo do BOTAFUMEIRO
que consiste num imenso turíbulo de latão prateado medindo um metro e dez centímetros de altura e pesando oitenta quilos. É tido como o maior do mundo. Ao final da Missa, é trazido até o altar e atado a grossas cordas, puxadas por oito homens que trajam um capote vermelho, os chamados "tiraboleiros".

O ritmo é marcado pelo som de um órgão que contribui para cercar os sentidos com a noção do sagrado. O acionamento do Botafumeiro hipnotiza a todos os presentes, muitos chegam até as lágrimas. Não tem quem não se emocione.

AMIGOS
Terminada a celebração fomos passear pela cidade e reencontramos alguns amigos que fizemos ao longo destes dias.

 


AMIGOS ESPANHÓIS DE PONTEVEDRA
À tarde esperei ansiosa a chegada de uns amigos queridos espanhóis que moram em Pontevedra, distante 70 km de Santiago. Chovia torrencialmente mas tive a felicidade de poder passar uma tarde com eles. Fiquei muito feliz pois eles haviam morado muitos anos na mesma rua que eu em Salvador e mal podíamos acreditar estarmos todos juntos em frente à Catedral de Santiago. Tiramos esta foto histórica. Estava muito cansada e tinha vontade de retornar logo para o Brasil para estar com minha família e por este motivo não aceitei o convite deles para passar uns dias em sua casa, em Pontevedra.

 

Enviado por Sandra Azevedo
 
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