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De Santiago de Compostela à Finisterre - a pé
 
 
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por Marcio Guedes
Muitos tentarão te demover da idéia de seguir a pé até Finisterre. "Não há nada para se ver no Caminho", "É perigoso", "Não tem onde dormir", "Vá de ônibus", "Os cachorros não são presos" e "Siga a carretera (estrada)" são as frase mais comuns. Mas a esta altura você já aprendeu a graça da coisa e quer mais é seguir em frente. 

Finisterre era o objetivo das primeiras peregrinações, há milênios: o "Fim da Terra", quando ela ainda era plana. Ali o Homem ia se confrontar com o Fim, com o seu fim, com a Morte, tão bem representados pelo pôr do Sol no imenso oceano sem horizonte. Ali também o Homem encontrava com o Renascimento, igualmente bem representado pelo nascer do Sol no dia seguinte. Rituais de Fecundidade são representados em pinturas na pedra em imemoriais ruínas. Em um "Leito do Santo" na Capilla de San Guilermo as mulheres inférteis tentavam engravidar (religiosamente abençoadas). 

Finisterre assim representava (representa) não somente o fim de uma jornada, mas também o início de uma outra: a volta. O reinício, o recomeço, estando o Peregrino agora mudado. Os rituais não poderiam ser mais significativos: depois de ir até o fim da terra (onde há um farol), você desce até o mar onde devolve sua Concha até o Oceano, queima suas roupas de Peregrino/a, mergulha totalmente nu/nua (numa água gelada) e vê o Sol se pôr (ou morrer) no Mar. E então, retorna ao Mundo. Renascido. 

Não dá para cumprir tal ritual de consagração de ônibus... 

É muito difícil conseguir informações sobre como ir  de Santiago à Finisterre a pé. A Oficina de Peregrinos de Santiago de Compostela dificulta mas fornece duas cópias muito ruins com um mapa e um roteiro. O melhor guia é o suplemento nº 47 da revista "Peregrino" chamado "Prolongación Jacobea a Fisterra y Muxia", extremamente detalhado (não se o consegue em Santiago, mas sim nas Associações de Amigos do Caminho: aqui do Rio, tente também em Santo Domingo de La Calzada e em León). Mas você também precisa da tal cópia do mapa da Oficina de Peregrinos de Santiago de Compostela, para ter uma noção do todo. Acabaram-se as setas amarelas, os refúgios e os cachorros presos. Você agora vai andar pelo mato desconhecido, em um trajeto de aproximadamente 80 quilômetros. 

A caminhada à Finisterre faz um bem enorme. Quanto mais perto de Santiago você ia chegando, maior a quantidade de Peregrinos, grupos barulhentos, caminhantes e turistas - ou seja, adeus paz de espírito. Pois caminhando até Finisterre você está de volta à calma, à paz, à introspecção. 

No início é muito difícil. Você se perde muitas vezes e logo aprende que vai ter que conversar com todo mundo, que vai ter que construir o seu caminho. Uma bússola para ajudar, dois mapas, muita conversa e muito feeling  (não se preocupe, após a peregrinação à Santiago o teu  feeling de caminhante está tinindo!): é assim que serão seus próximos 3 dias. 

Não há o que discutir no primeiro dia: o trajeto é até Negreira, a 20 Km. de Santiago.  São 20 quilômetros em condições bem diferentes das que você está acostumado, portanto não pense que vai percorrê-los no mesmo tempo e com a mesma calma dos últimos tempos de Peregrinação (a Galícia nos deixou mal acostumados...). Primeiramente um pouco de mato; depois uma perigosa carretera; finalmente você começa a caminhar pelas estradas comarcais. Povoados graciosos e gente simples e simpática. E subidas puxadas sob sol escaldante. 

No meio deste primeiro dia, uma pérola: Ponte Maceira, com uma maravilhosa e enorme ponte medieval, uma das mais bonitas do caminho (e com uma vista extasiante). Do outro lado da ponte, a capilla de San Blás, padroeiro das doenças da garganta: não deixe de tomar um pouco da água de sua fonte (aliás pode encher logo o cantil com esta geladíssima água santa...). 

Negreira tem pensões, restaurantes e mercados: é fácil se virar. Fiquei  (e comi) na pensão La Mezquita, quarto a 1500pts. (=US$12), que recomendo. 

No segundo dia a coisa complica: a próxima pensão fica em Ceé, a 44 Km. de Negreira e 12 Km. antes de Finisterre; ou seja, você vai ter que achar alguma coisa no caminho. E este caminho vai sendo feito a cada passo. Cada pessoa com quem você conversa te dá uma idéia diferente de por onde prosseguir, cabe a você decidir. 

Para encontrar onde dormir desviei-me 4 Km. do rumo e fui dormir em Picota (capital do município de Mazaricos), próxima a Lagos, 26 km. depois de Negreira (não se preocupe, o Guia dá todas as dicas). Uma bússola é indispensável neste caso. A recompensa, alegria: sua peregrinação está chegando ao fim, você está chegando a pé ao Fim da Terra. As testemunhas são as vacas, os cachorros e a esta altura uns muito poucos passantes que você encontra aqui e acolá: um pastor, duas crianças brincando, um condutor de trator. 

Ceé parece próximo a Finisterre, mas não se engane: ainda falta muito (12 km.). Talvez seja preferível seguir pelos caminhos das praias. Eu estava muito cansado para tentar explorar e segui as perigosas carreteras paralelas às praias, perdendo muito em visual e até mesmo caminhando distância mais longas. 

Finisterre é a mais maravilhosa recompensa que se pode encontrar ao fim desta Peregrinação. Uma cidade de pescadores acostumada a receber turistas de um ou dois dias. Ali fiquei por toda uma semana, comendo os mais deliciosos peixes e visitando inacreditáveis lugares: o Farol do fim do Mundo, com seus penhascos que te trazem todas as perguntas (e a certeza da inutilidade das respostas); a Praia do Mar de Fora, ideal para o ritual final do Peregrino e banhos de mar sem roupas; a praia da Langosteira com sua cor incomparável; uma segunda visita ao Farol à noite (sempre a pé); as belíssimas imagens de santos na Iglesia Paroquial de Santa Maria das Areas; o enorme quebra-mar; e tudo mais que você vai conhecer lá. 

Recomendo a pensão chamada Casa Velay, da sra. Carmen: por 2500 pts. (US$20) você fica no quarto mais nobre, de frente para o belíssimo mar em uma inesquecível enseada. Restaurantes existem aos montes, mas não deixe de visitar os que ficam em frente ao Porto. Nas Galerias Pérez você encontra informação, souvenirs, literatura e receptividade da sra. Lourdes. Na prefeitura você carimba sua credencial (carimbei até meu passaporte!) com o 'sello' "Fin da Ruta Xacobea * Consello de Fisterra". E no Patronato (e não na Igreja) você obtém o último carimbo. Se der sorte, a sra. Pilar escreverá em sua credencial: "Fisterra. Fin Ruta Xacobea. Que el faro y la estrella te guie en tu caminar". (Fisterre é Finisterre em galego). 

Despeça-se dos maravilhosos vinhos, das botas imundas, das bolhas: vai começar a viagem de volta. 

De Fisterre à Santiago você vai de ônibus (2 vezes ao dia, saindo da Estação Rodoviária que fica no Porto). De Santiago à Madri, em trem noturno (6 leitos por cabine). 

Fiz este trajeto em julho de 1996, e o recomendo a todos os Peregrinos. É uma coroação de sua aventura. Mesmo não podendo ir a pé, ao menos visite Finisterre de ônibus. E reserve um bom tempo para sua estadia lá. É um prêmio mais do que merecido por tudo o que você passou. 

TRAJETO: 

1º Dia (20km.) 

SANTIAGO DE COMPOSTELA - saída da cidade e então trilha pelo mato até Sarela de Baixo - estrada comarcal até Vidán - estrada perigosa até Roxos e Vilastrexe - estradas comarcais através de Augapesada, Carballo e Ponte Macieira, e chegando a Negreira. 
2º Dia (26km.) 

Estrada comarcal por  Vilaserio - carretera até Maroñas e A Mola (opção de saída a Pino do Val, a 20 km. de Negreira e 6,5 Km. fora da rota, com pensões; não recomendo pois o desvio é grande e restaria uma distância superior a 40 km. até Finisterre no 3º dia) - estrada comarcal através de Bon Xéxus até Lago, com desvio de 4 km. até Picota. 

3º Dia (34km.) 

Carretera até Oliveroa e Hospital Dumbria - saída quase oculta entre os escombros em frente à Fábrica de Carburos metálicos de Dumbria para o Camiño Real - 9 km. de estrada de terra por cima dos morros sem povoados até Ceé, à beira-mar - daí a Finisterre, seguir o litoral. 

Marcio Guedes 
RJ, 29.mar.1997 

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